Virgínia Fulber

Infância Roubada

     Não fosse o nome ser tão belo e santo sobrariam suas tranças negras alargando-se em brados, debruçadas na janela. Uma bela mulher irada confusa, entre a malha apertada mal suspiram seus olhos ‘a procura de confusões   noturnamente.

     Dois cães, um gato e o lençol bordado, em seu varal esperam...
Aguardam pelo grito mais altivo de sua dona “ladrão!”.

     Ana Mariana possui antecedentes; seu avô, dizem, era “o louco João“,

homem bravo de faca na bota. Se pai não menos estranho, jamais instalou

uma torneira na casa, bebiam água do poço, a roupa lavada em baldes. Na

casa não havia privada. Ana e suas irmãs tomavam banho eventualmente;

uma generosa vizinha as pegava pela mão, levava-as ‘a sua bela banheira,

escova-lhes as tranças, desembaraçava-lhes remelas, colocava-lhes fita no

cabelo e, por uma semana Ana e as outras sentiam-se mais gente, menos

roubadas  pela vida, vestidas de  dignidade!

     Um cheiro forte de urina invade o corredor do apartamento, onde vive hoje Ana “louca” Mariana que,  espera o ladrão que não vem.

Certa vez jogou um pela janela, diz gabando-se e, passou a vigiar a rua.

     Noite e dia varre a poeira das lembranças triste de sua infância. Pelo mar ressequido dos seus lábios de grito estreito, ouve-se nas noites o lamento dos  sonhos encardidos , roubados , espatifados .

      Ana Mariana espera, espera pegar em flagrante o ladrão, alguém para punir

e, quem sabe sarar...

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Virgínia F. de Além Mar  14/novembro 2006

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