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Um Brinde À Vida “ Muito simples... a beleza permanece... a dor termina passando..." (Renoir à Matisse) Um brinde ao meu fluir errático, porém belo.Minha coerência se ancora nessa aparente inconsistência, que bem olhada, não com os olhos do ideal,mas com os da existência vera, permitem seu entender.Perscrutar os estares do existir, e todos os entremeios, sem os negar, sem aplicar as covardias dos ideais, é o viver que procuro, que rezo, em minha religião de todas as divindadese sem querer nenhuma delas. Pôr que discorrer sobre a imperfeição humana, quando naquilo que nos ensinaram a ser o perfeito, o belo, o justo, o correto, está apenas o nosso engano, o nossoirreal, a nossa covardia, a nossa mentira. Aprendemos a temer o que realmente somos. Tememos praticar o nosso eu, perceber o farfalhar da vida. Rompermos com a realidade, e consideramos o adejar uma tragédia. Quer-se voar alto, acima das montanhas. Como pesquisadora aprendi a encontrar mistérios e respostas tão explicitas nas entranhas das montanhas,nos detalhes dos desertos, nos entalhes dos abismos, na realidade, referências às nossas próprias vidas. Lembro de uma questão lançada em uma inscrição locada em Pompéia, datada do século I dC…”De que vale uma Vênus se ela é de mármore?” O olhar do meu amigo Nietzsche bradou : “A arte grega ensinou a nós que não há superfícies realmentebelas sem profundezas Medonhas.”Afinal, ali está o “quieto, o rígido, o liso, o frio”… O problema e a resposta estão, para mim, atrevidamente respondendo a ambos, a Nietzsche e à inscrição, não na estátua de mármore, ou coisa que o valha. Estão, o problema e resposta em nós. Se a tocarmos de alguma forma, se a sentimos, veremos nela o contrário, veremos nela o som, o mover, o áspero, o tépido… O problema está na falta do diálogo…Só nos parece “quieto, rígido, frio…” aquilo para o qual também o somos… A resposta, o próprio Nietzsche encontrou e , infelizmente não a esta questão estendeu…A resposta é “Só louco…só poeta…” Só assim nossos olhos funcionam bem… Roubem, espezinhem, arruínem meu cérebro,mas não se atrevam bulir em meu coração… Via este meu grande referencial, o que prezo se indica aqui e aí, à flor das peles, nos sons, odores, sentires diversos, que marcam os compassos e descompassos dos nossos viveres. E se alguém me olha e brada: “estás sendo incoerente!” Só tenho uma resposta: “- Ótimo! Eu sempre estou as incoerências, as inconformidades, as des-uniformidades, as des-sintonias… Atraem-me as apostasias… Amo as heresias… Disso sugo meu alimento… Por que julgar? Para que avaliar? Por que não apenas observar, participar…sorrir…fluir…viver…É tão bonito para e dizer : Não há dor tanto quanto a dor se impõe… Com que potencial de extração do existir, Mary Shelley, em seu frankstein , lança: “Nada perdura, a não ser a instabilidade”. Por que desafiar essa qualidade do existir? Por que não admirá-la,vivê-la… Ah! Nietzsche, será que nós que te entendemos um tanto temos que ser assim? Em tuas palavras, “mais íntimo dos desertos que dos templos. Resposta óbvia… Sim! “São precisas asas quando se ama o abismo…Há pouco caçador de deus, rede de pescar virtude, seta contra o mal ! Agora – Por ti mesmo caçado, presa deti mesmo…Em ti mesmo fincado…Agora…Solitário contigo , dividido no teu próprio saber, entre centenas de espelhos…falso perante ti mesmo, entre centenas de memórias, inseguro,cansado de todas as feridas, transido por todas as geadas. Estrangulado nos teus próprios laços… Conhecedor de ti mesmo…Carrasco de ti mesmo! Pôr que te enrolaste no laço da tua sabedoria? Por que te deixaste atrair para o paraíso da antiga serpente? Por que te introduziste em ti…em ti? Um doente agora, doente do veneno da serpente…um prisioneiro agora, a quem coube a mais dura sorte: trabalhar curvado no teu próprio poço, escavando-te a ti mesmo, desastrado, rígido , um cadáver…sucumbido ao peso de centenas de cargas, sobrecarregado por ti mesmo…Um sábio! Um conhecedor de ti mesmo! Procuraste a carga mais pesada: A ti encontraste…e não pode alijar-te de ti… À espreita, agachado, alguém que já não está de pé! E deformado, te confundirás ainda com tua tumba, espírito disforme…E há pouco ainda tão orgulhoso, sobre todas as andas do teu orgulho!…Agora entre dois nadas, encurvado, um ponto de interrogação, um enigma cansado, um enigma para as aves de rapina…elas já te decifraram, já tem fome da tua solução, esvoaçam já em redor de ti, o seu enigma, de ti enforcado…Conhecedor de ti mesmo…Carrarsco de ti mesmo…” Que dor espetacular, mas não temos como não ir adiante.Quanto mais dói mais se vai…Somos como naus, cujo vento são a dor, o reconhecimento, o entendimento, a satisfação, a felicidade,guerreiros... Cadeia inquebrantável, a impulsionar, rumo a um sem fim, ao qual, afinal, jamais chegaremos. Para que chegar? Pois chegar é que é morrer,é ser destruído, justamente como vitória… Que herói resiste à destruição do vilão? O filme sempre acaba aí…Ou há ambos ou há nada... Escuto uma musica Barroca. É como se ela houvesse sido arrancada do meu coração.É tão bela. Gostaria de ter aprendido a ser eu, ou melhor, a estar eu , ao seu som. Afinal Oscar Wilde reconheceu que “as coisas simples…são o último refúgio de um espírito complexo…” Afinal….dancei, acho que escrever, é também dançar, falar é dançar, estar “vivo”é dançar…Quem pode definir? Quem pode limitar? Só penso que com um cérebro dissociado é impossível responder, se é que precisa haver resposta,deveria bastar sentir?... Olho em volta , penso talvez eu queira ser eterna….mas lembro de Hoyle…”O que fazer com a eternidade? .Acho que não me adaptaria,.tudo muda... Sou tão os momentos...É sublime o passar,tanto quanto o aparecer...A dor disso é agradecida e, compreensiva,abro espaço para outrem,.devolverei esta matéria para onde a colhi sem escolha, mas sem reclamação. Protestaria se não entendesse, mas entendo a realidade….A minha morrerá comigo ... Afetuosamente Virgínia fulber 1997 – ( post sem correção em |