Virgínia Fulber

Um Pouco Mais De Alma?

o saber muitas coisas não é suficiente para tornar sábio ao homem "

 ( Heráclito frag 35)

Somos seres do desejo e da necessidade, ontológicos desejos de comunhão retorno

à natureza da qual nos sentimos afastados pela   consciência de nós mesmos e da temporalidade, nisso diferimos das demais espécies. Pensemos aí uma fonte de

nossas insatisfações. Investimos demasiadamente nossa libido no Outro, tendemos a tecer,inconscientemente,um projeto que nos traria de volta as sensações de conforto, e satisfaria as nossas necessidades... Será?

No Budismo vimos que desejo é fonte de sofrimento, contudo não podemos abrir mão dos desejos mesmo sabendo que perseguimos o impossível; a complementariedade   absoluta e permanência em um estado de êxtase pois nossas satisfações são efêmeras, há nelas uma sombra já da insatisfação. Há momentos em que  experimentamos o sentimento "oceânico" porém não nele conseguimos permanecer, queremos aprisionar o momento,entretanto  no largarmo-nos no fluxo dos instantes é que continuamos afirmando nosso estar no mundo, errantes desejantes.

O Outro é tão nômade quanto eu e não tem culpa se sou vítima de minhas expectativas em relação a ele, ilusões estas que frustradas me tornam ressentido ou vingativo. Existe um ponto em comum entre a vingança e o ressentimento, ambos atribuem a culpa a um Outro. O vingativo indigna-se contra e responde, ou defende-se, enquanto que o ressentido é impotente em reagir imediatamente aos agravos de suas dores e frustrações, exemplificando, como o que quero do Outro ele não me deu,

manifesto indignação, raiva e cólera na direção do objeto. O ressentimento impedido pela culpa inconsciente de dirigir a frustração e indignação para fora, volta-se  contra si mesmo. Nossos interesses no Outro implicam em responsabilidade para com este, porém não em reciprocidade esta é de competência do Outro.

O perdão do grego afíeme= "deixar ir" ou, deixar passar" assim o como o compreendo, não implicaria numa moralidade e sim numa ética sobre si mesmo que, estendemos os demais seres humanos abrangendo o Universo ( Outro? )

Penso que admitir, reconhecer este ser de desejo e descontentamento pelo fato de sermos humanos pode ser uma ferramenta na construção do entendimento sobre nós e o Outro com maior interesse, lembrando que não há ser humano desprovido  de interesses.

“Todos os instinto que não se descarregam para fora voltam-se para dentro isso é o que chamo de interiorização do homem: É assim que no homem cresce o que depois se denomina alma”.( Nietzsche- Genealogia da moral )

Somos afetados e afetamos constantemente. Uma vida afirmativamente requer  compreensão de nossa natureza desejante e das reações ressentidas ante o desinteresse do outro. Aceitar as diferentes subjetividades, visões e estares no mundo e, deixa-se passar e abrir-se à fluidez dos momentos é uma conquista laboriosa, pois o passado já foi e o futuro ainda não é, assimilar a potência e as multiplicidades nos lança à abertura dos acontecimentos numa postura vigorosa de continuidade,  entendimento do processo em que estamos inseridos que estamos num processo evolutivo ; sem a má consciência também não haveria civilização, cultura e arte (kuns) “.

Lembrando Heráclito ; Tudo flui nada permanece ...

Que possamos aprender das chamas, dos rios do fluxo incessante das águas e, que  "(...) o tempo próprio, que traz todas as coisas."

Penso oportuno rever conceitos, reler a   “visão” de Heráclito nestes tempos de incertezas que visões orientais e ocidentais cruzam-se e uma aproximação torna-se possível ...  Paradigmas culturais estão sendo revistos, o racionalismo excessivo é

repensado; "Limites da alma não encontrarias, nem todo o caminho percorrendo; tão profundo logos ela tem" (Heráclito fragmento 45)

Valores demasiadamente humanos criaram-se, sobre e em torno deles novos instalam-se , que sejam mais flexíveis permitindo  a compreensão do dinamismo

implícito  nas relações e quanto de beleza é possível produzir... 

"Para as almas é morte tornar-se água, e para a água é morte tornar-se terra, e de terra nasce água, e de água alma" (Heráclito-fragmento 36).

“ Harmonia invisível, à visível superior" (Heráclito frag.54) então..

“Eu fico com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz” (Gonzaguinha).

Afetuoso abraço,  virgínia -07 anteriormente no Portal Maytê

vicanf@yahoo.com.br

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