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Ferida Sagrada Complexidade,
procura do sentido , Caos Cosmo de cada um
“Só a experiência própria é capaz de
tornar sábio o ser humano.”
“ Só conservamos na velhice
uma
espinha arqueada que se dobra ante
os novos fatos, quando nos mantivemos
curvados durante a vida para evitar os
choques dolorosos com a realidade” S. Freud
“ Eu vos digo:
É preciso ter ainda caos dentro de si,
para poder dar à luz uma
estrela dançante. “
(
F. Nietzsche)
Ela
me chegou serena,
uma senhora de
meia idade, traços delicados, num traje apropriado para sua idade, leve,
lenço colorido
no pescoço, brincos cabelo brilhantes, olhos
límpidos, amparada por uma bengala, com muita dignidade.
Pensei –Enfim alguém que
soube amadurecer!
Trazia um álbum de fotografias, de fina espessura.
Sentou-se tirou os sapatos e com naturalidade
admirável, cruzou as
pernas na poltrona, na postura de uma índia ( Yoga Lótus).
Disse-me olhando francamente, por favor,
passe os olhos nestas
fotos, depois falaremos, pois tenho uma questão a colocar.
Conheces muitas histórias de vida e creio
compreenderás o que
te passarei.
O álbum tratava-se de um documentário de sua imagem .
No início um bebe lindo saudável,
radiante, daqueles bebes de comercial de
fraldas, após com dois anos um olhar terno um sorriso ingênuo e
cativante. Cabelos loiros mel, olhos
da mesma cor, na terceira fotos
de maiôzinho com os pais na praia e seus
irmãos aos três anos. Seguindo foto com cinco anos, gracinha, e
lembrança de
aniversário, e assim de seis e sete anos, após uma linda foto com um
livro aberto, início de idade escolar,
aquelas que tiram na escola, seguidas de folhas em
branco, muitas .
Perguntei se havia terminado, pacientemente sorriu .
Pediu-me que continuasse a folhar o álbum.
Surpresa uma mulher grávida
radiante , você? Meneou
a cabeça num singelo ,sim.
O álbum encerra-se com uma foto
atual, mulher de meia idade com um enorme sorriso olhando
para o céu.
Perguntei o que significam as páginas em branco?
Sorrindo disse-me dos sete anos
em diante queimei as velhas imagens ! Por volta dos meus quinze anos,
dando uma boa risada,
neste ano era ”proibido” fotografar-me , ficava
furiosa. Destruí as
imagens que sacaram de mim, com relutância pois,
não me faziam Justiça.
Durante dezesseis anos meu
corpo esteve mortificado,
transformado, encapsulado, disforme ,tentei esconder minha beleza e graça
porque esta , no meu entender ,havia sido a causa do
incidente que lesou-me e deixo-me com uma marca.
Esta “ferida” foi determinante em minhas escolhas de vida.
Lamento há algum tempo não possuir tais registros, mas fiz o que tinha
que ser feito e
o que passou, passou !
Queres contar a causa da ferida, perguntei, a que me
respondeu afirmativamente.
Um acidente de percurso que passo a relatar:
Tinha nove
anos de
idade, numa tarde de
domingo, como de costume, fui
ao cinema com minha colega de escola, o pai desta
nos deixou na portaria do estabelecimento.
Eu estava
deslumbrante, vestidinho curto cheio de babados, calcinha de
rendas, aquelas saias de armação
por baixo que valorizavam a graça e nos tornava
todas ”bailarinas”! Cabelos longos levemente ondulados ,
adornados com tiara de
flores. Num determinado momento um ”homem” sentou-se ao meu lado, colocou sua mão sobre minha
coxa ,encolhi-me, fechei as
pernas, os ombros contorcidos, acheguei-me mais perto de
minha amiguinha, o homem, tocou minha virilha, um constrangimento
absurdo terrível, tomou conta de mim.
Fugi como pude , tive apenas força de comunicar minha amiga, que iria ao
banheiro, e lá fiquei escondida
até acenderem as luzes, término da apresentação do filme. Nada falei
com a amiga, nem com ninguém .
Minha vida mudou de rumo, até então eu amava o palco, queria ser
bailarina e
cantora, já dançava, nadava
desde os cinco anos
aproximadamente, um
diferencial na época, que me dava formas graciosas e livres. Durante este
ano meus planos mudaram, decidi ser
“professora e mãe dos meus filhos “. Apesar da potência de
vida incrível que pulsava neste corpo, e uma mente inquieta e muito
perspicaz, algo
perturbava o fluxo vital e os impulsos passavam a ser filtrados
pelo ”medo”
de um novo assedio.
II
Durante este ano tive sérios problemas na escola,
não enxergava mais o quadro negro, as letras
bailavam, tinha dificuldades
em escrever “na linha “,
iniciava na primeira linha uma frase que ia acabar no meio da
folha, solução ,oculista.
O
diagnóstico foi astigmatismo
e miopia , porém o médico perguntou,
na consulta, à minha
mãe, se eu havia nascido estrábica
? A que esta
respondeu negativamente e afirmou que
sempre fui “perfeita”.
O Oculista inpressionado, questionou se havia sofrido alguma queda
violenta na qual teria ferido a
cabeça? Negou, .
Ainda interessado , lembro
de suas palavras ainda hoje , disse,
“o caso é impressionante,
a vista esquerda não quer ver, ela está paralisada, “preguiçosa”, receitarei
óculos e exercícios, deverá, treinar leitura, exercitar
apenas com a vista esquerda. “
Interessante , este olho não queria ver, pois no dia do “atentado” no cinema
não tive coragem de olhar para
o “homem do cinema” que estava justo ao meu lado esquerdo. Além
disto passei a sofrer de dores terríveis na perna esquerda, que
”caminhavam”, migravam, a
perna “falseava” ,caia na calçada, motivo de risos das amigas,
logo eu que possuía um controle fantástico sobre meu corpo, e
tanta graça e flexibilidade em exercícios, um desastre para uma ainda
bailarina, nunca deixei de dançar! Porém Fiquei muito tímida,
constrangida com meu corpo e a exuberância deste, palcos
associados a vestidos
viraram meu terror,
inventei interpretações
trágicas de pessoas mais velhas, teatro de
bonecos,
papéis de menino, formas de continuar no palquinho sem expor-me
demasiadamente .
Recordo o dia mais infeliz de minha vida, completar
dez anos, significava deixar de ser criança, quis morrer! Nada
mais de festas de aniversário ,os quinze um pavor! Natação
após os quinze anos não mais , nas competições
o olhar dos
garotos mais velhos não
suportava , sentia-me ameaçada por
qualquer figura masculina , estranha, que fosse
“mais velho”,
um ano a mais que eu ,bastava , e se fosse mais alto...
fantasma
do ”homem adulto e perverso do cinema” ,inconscientemente,
estava sempre presente, interferindo nas minhas escolhas e
decisões . Comecei a ficar corcunda, os pés voltados para
dentro, solução Yoga, Psicólogo e aí novos caminhos, até os vinte
ninguém conseguiu ,adentrar
em minha dor, física e inadequação , psíquica que bem escondi,
a causa de mim mesma. A artista a diferente, que havia em mim e a
sorte de ter uma família estável, tinha constituição geneticamente
saudável,e estimulada pela belo e alegre , que me dava
potência para viajar
e buscar-me. Conhecer novas culturas e novas técnicas
terapêuticas, além do estudo que sempre foi uma
forma de terapia. Conhecer, conhecer, queria conhecer, entender
a vida e seus porquês.
Foi desta forma com mente inquieta, aberta que conheci a terapêutica corporal , decisiva.
Numa sessão, despertou a lembrança do episódio traumático. Não digo
que as outras técnicas, como a Psicanálise ,não ’funcionem”, mas
para mim ,não foram suficientemente eficazes, sem a
intuição e o toque daquela mulher
fabulosa não sei se teria conseguido
romper a barreira !
Houve um silêncio, que denotava
final desta etapa da conversa, ainda havia tempo , indaguei;
tua mãe na volta do cinema não notou nada de diferente em ti? Ao
que me respondeu , não
lembro.
Porém depois de adulta percebi que
minha mãe não me vê, não me sente, não me percebe, apenas
sabe e talvez soube, avaliar e criticar as minhas roupas , comentar o exterior
a estética, talvez tenha chego com a roupa “limpinha “e estava
tudo bem, e...Interrompi novamente; porque nada disseste, nada contaste
aos teus pais ?
III Ao
que respondeu, havia ouvido conversas entre minha mãe e outras mulheres
sobre meninas ,
e o comportamento feminino, “estas “putinhas” não sabem se
comportar, quando são abusadas, dão
a culpa aos homens ” .Do que concluí
que eu havia me portado mal e
não bastasse a ferida em minha alma, ainda seria
criticada por mau
comportamento.
E seu pai, perguntei,
a que passou a
comentar ;com ele me refugiei num mundo a- sexual, decidi não entregar o
jogo pois como era o objeto do meu amor não
queria decepcioná-lo ,com minha fraqueza de não ter reagido ,
afinal ele “esperava” que eu fosse mais inteligente”, na minha opinião,
coisas, fantasias de criança !
Todos queremos ser amados, aceitos
e perfeitos diante do ser
amado !
Sorriu um pouco
triste... isto já vi e resolvi o
que me trouxe a ti, disse ela ainda sorrindo,
É uma curiosidade , apenas
gostaria de saber se não fosse por esta Ferida Sagrada eu teria
sido mais feliz? Teria eu contribuído na comunidade de forma mais saudável
,eficaz? Teria sido melhor mãe? Uma mulher mais realizada,
pois sinto-me muito bem, e
agradecida por tudo
que vivi e aprendi sobre mim mesma e
os homens nesta terra. Trago ainda curiosidade
em torno do destino ,
me fascina, há um desejo de saber ... Temos mesmo
escolhas? Teria eu amado tanto e estaria tão
agradecida por cada raio de sol ?
Por cada conquista
empreendida? Teria eu entendido minha mãe e a amado do jeito que
é? Até que
ponto o sofrimento entendido e aceito é fonte de busca espiritual?
Tenho para mim u m sim
à vida e uma impressão de que tudo está certo !
Silenciei sorrimos uma para outra, havia um entendimento
além do tempo entre nós, a pergunta ficou no ar , abraçamo-nos e
ela se foi, com a
mesma leveza e
propriedade com que entrou, ainda na porta apenas disse, obrigada,
foi bom contar a história
redondinha para ti, somos ,sobreviventes
e heróis não é mesmo?
Estamos vivas!
Só mais uma pergunta eu , já me
desculpando pela curiosidade e
a bengala? Ela ,sorrindo ,para poder caminhar ...A Ferida Sagrada ainda dói,
para lembra-me que sou humana e compadecer-me com a dor alheia , como um
“Xamã” ?! (risos) .E, continuou, uma
artrose na perna esquerda se desenvolveu desde os vinte anos, os
psicólogos achavam que minha dor era histeria,
após profundos diagnósticos
foi verificada a presença dum
desgaste ósseo,
bem como meus dentes que prematuramente , “destruí”, dentes são
defesa e atributos de sedução !! Continuou,
segundo especialistas tive uma saliva muito ácida ,que atribuo a
raiva não depurada no momento
ideal, penso , graças as novas
técnicas hoje, não ”arrancam dentes fracos”
e, sorrindo ela
se foi !
Não mais a vi porém tenho prestado mais atenção às “Feridas Sagradas”.
Reporto-me à Freud a quem o
Pai disse que
“não seria nada na vida “ .Ele
só tornaria a lembrar essa frase, a muito custo, aos 41 anos. ..
talvez tenha sido esta a sua “Ferida
Sagrada”!
Recordo Nietzsche em
sua obra , Minha Irmã
e Eu ,
na qual relata
o assédio desta sobre sua inocência !
Virgínia Fulber de
Além Mar |