Virgínia Fulber

 Ferida Sagrada

Complexidade, procura do sentido ,

         Caos Cosmo de cada um                   

               “Só a experiência própria é capaz de

                 tornar sábio o ser humano.”

              “ Só conservamos na velhice uma

                espinha arqueada que se dobra ante

                os novos fatos, quando nos mantivemos

               curvados durante a vida para evitar os

               choques dolorosos com a realidade” S. Freud 

                                    Eu vos digo: É preciso ter ainda caos dentro de si,

                                            para poder dar à luz uma estrela dançante. “

                                                         ( F. Nietzsche)

 

            Ela me chegou    serena, uma    senhora de meia idade, traços delicados, num traje apropriado para sua idade, leve,  lenço  colorido  no pescoço, brincos cabelo brilhantes, olhos  límpidos, amparada por uma bengala, com muita dignidade.

     Pensei –Enfim alguém  que soube amadurecer!

     Trazia um álbum de fotografias, de fina espessura.

     Sentou-se tirou os sapatos e com naturalidade  admirável,  cruzou as pernas na poltrona, na postura de uma índia ( Yoga Lótus).

     Disse-me olhando francamente, por favor,   passe os olhos  nestas  fotos, depois falaremos, pois tenho uma questão a colocar.

     Conheces muitas histórias de vida e creio    compreenderás  o que te passarei.

     O álbum tratava-se de um documentário de sua imagem .

     No início um bebe lindo saudável,      radiante, daqueles bebes de comercial de  fraldas,  após com dois anos um olhar terno um sorriso ingênuo e cativante. Cabelos loiros mel, olhos        da mesma cor, na terceira fotos de maiôzinho com os pais na praia e seus     irmãos aos três anos. Seguindo foto com cinco anos, gracinha, e lembrança    de aniversário, e assim de seis e sete anos, após uma linda foto com um livro aberto, início de idade escolar,        aquelas que tiram na escola, seguidas de folhas em   branco, muitas .

     Perguntei  se havia terminado, pacientemente sorriu .     Pediu-me que continuasse a folhar o álbum.

     Surpresa  uma mulher grávida radiante , você?   Meneou a cabeça num singelo ,sim.

     O álbum encerra-se com uma foto  atual, mulher     de meia idade com um enorme sorriso olhando para o céu.

     Perguntei o que significam as páginas em branco?

      Sorrindo disse-me dos sete        anos em diante queimei as velhas imagens ! Por volta dos meus quinze anos, dando      uma boa risada,   neste ano era ”proibido” fotografar-me , ficava     furiosa. Destruí  as imagens que sacaram de mim, com relutância pois,     não me faziam

Justiça. Durante dezesseis anos  meu corpo  esteve mortificado, transformado, encapsulado, disforme ,tentei esconder minha beleza e graça porque esta , no meu entender ,havia sido a causa do  incidente que lesou-me e deixo-me com uma marca.               Esta  “ferida” foi determinante em minhas escolhas de vida. Lamento há algum tempo não possuir tais registros, mas fiz o que tinha que ser feito  e     o que passou, passou !

     Queres contar a causa da ferida, perguntei, a que me     respondeu afirmativamente.

     Um acidente de percurso que passo a relatar:

     Tinha  nove  anos de      idade, numa tarde   de domingo, como de  costume, fui ao cinema com minha colega de escola, o pai desta  nos deixou na portaria do estabelecimento.  Eu estava        deslumbrante, vestidinho curto cheio de babados, calcinha de rendas,  aquelas saias de armação por baixo que valorizavam a graça e nos tornava     todas ”bailarinas”! Cabelos longos levemente ondulados , adornados   com tiara de flores. Num determinado momento um ”homem”   sentou-se ao meu lado, colocou sua mão sobre minha coxa ,encolhi-me,  fechei as pernas, os ombros contorcidos, acheguei-me mais perto de  minha amiguinha, o homem, tocou minha virilha,         um constrangimento absurdo terrível, tomou conta de  mim. Fugi como pude , tive apenas força de comunicar minha amiga, que iria ao banheiro, e lá      fiquei

escondida até acenderem as luzes, término da apresentação do filme. Nada falei com a amiga, nem com ninguém .   Minha vida mudou de rumo, até então eu amava o palco, queria ser bailarina    e cantora, já dançava, nadava          desde os cinco anos     aproximadamente,  um diferencial na época, que me dava formas graciosas e livres. Durante este ano meus planos mudaram, decidi ser       “professora e mãe dos meus filhos “. Apesar da potência de vida incrível que pulsava neste corpo, e uma mente inquieta e muito perspicaz, algo      perturbava o fluxo vital e os impulsos passavam a ser filtrados pelo      ”medo” de um novo assedio.    

                        II   

     Durante este ano tive sérios problemas na escola,  não  enxergava mais o quadro negro, as letras  bailavam, tinha          dificuldades em  escrever “na linha “,         iniciava na primeira linha uma frase que ia acabar no meio da folha, solução ,oculista.     O          diagnóstico foi   astigmatismo e miopia , porém o médico perguntou,     na consulta, à  minha mãe, se  eu havia nascido  estrábica ?  A que esta    respondeu negativamente e afirmou que  sempre fui  “perfeita”.        O Oculista inpressionado, questionou se havia sofrido    alguma queda   violenta na qual teria ferido a  cabeça?  Negou, . Ainda interessado ,   lembro de suas palavras ainda hoje , disse,  “o caso é  impressionante,  a vista esquerda não quer ver, ela está paralisada, “preguiçosa”,    receitarei   óculos e exercícios, deverá, treinar leitura, exercitar  apenas com a vista esquerda. “

     Interessante  , este olho não queria ver, pois no dia  do “atentado” no cinema  não tive coragem de olhar para      o “homem do cinema” que estava justo ao meu lado esquerdo. Além disto passei a sofrer de dores terríveis na perna esquerda, que ”caminhavam”, migravam,   a perna “falseava” ,caia na calçada, motivo de risos das amigas,    logo eu que possuía um controle fantástico sobre meu corpo, e tanta graça e flexibilidade em exercícios, um desastre para uma ainda  bailarina, nunca deixei de dançar! Porém Fiquei muito tímida,      constrangida com meu corpo e a exuberância deste, palcos associados   a vestidos viraram  meu terror,  inventei  interpretações        trágicas de pessoas mais velhas, teatro de        bonecos,       papéis de menino, formas de continuar no palquinho sem expor-me demasiadamente .

      Recordo o dia mais infeliz de minha vida, completar     dez anos, significava deixar de ser criança, quis morrer! Nada mais de festas de aniversário ,os quinze um pavor!

 Natação após os quinze anos não mais , nas competições   o olhar

dos garotos mais velhos  não suportava , sentia-me ameaçada  por qualquer figura masculina , estranha, que fosse  “mais velho”,       um ano a mais que eu ,bastava , e se fosse mais alto...    fantasma      do ”homem adulto e perverso do cinema” ,inconscientemente,       estava sempre presente, interferindo nas minhas escolhas e  decisões .    Comecei a ficar corcunda, os pés voltados para dentro, solução Yoga, Psicólogo e aí novos caminhos, até os vinte ninguém conseguiu ,adentrar     em minha dor, física e inadequação , psíquica que bem escondi,  a causa de mim mesma. A artista a diferente, que havia em mim e a sorte de ter uma família estável, tinha constituição geneticamente saudável,e estimulada pela belo e alegre , que me dava    potência para  viajar e buscar-me. Conhecer novas culturas e novas técnicas     terapêuticas, além do estudo que sempre foi uma         forma de terapia. Conhecer, conhecer, queria  conhecer, entender     a vida e seus porquês.      Foi desta forma com mente inquieta, aberta que conheci      a terapêutica corporal , decisiva. Numa sessão, despertou a lembrança do episódio traumático. Não digo que as outras técnicas, como a Psicanálise ,não ’funcionem”, mas para mim ,não foram       suficientemente eficazes, sem a intuição e o toque daquela mulher       fabulosa não sei se teria  conseguido romper a barreira !

      Houve um silêncio, que denotava    final desta etapa da conversa, ainda havia tempo , indaguei;  tua mãe na volta do cinema não notou nada de diferente em ti? Ao que me respondeu  , não lembro.

     Porém depois de adulta percebi que     minha mãe não me vê, não me sente, não me percebe, apenas         sabe e talvez soube, avaliar e criticar as minhas roupas ,        comentar o exterior  a estética, talvez tenha chego com a roupa “limpinha “e estava tudo bem, e...Interrompi novamente; porque nada disseste, nada contaste aos teus pais ?

                                             III

Ao que respondeu, havia ouvido conversas entre minha mãe e outras mulheres sobre meninas ,           e o comportamento feminino, “estas “putinhas” não sabem se comportar,        quando são abusadas, dão a culpa aos homens ” .Do que  concluí que eu havia me portado  mal e não bastasse a ferida em minha alma, ainda seria  criticada por   mau comportamento.

     E seu pai, perguntei,       a que passou      a comentar ;com ele me refugiei num mundo a- sexual, decidi não entregar o jogo pois como era o objeto do meu amor não        queria decepcioná-lo ,com minha fraqueza de não ter reagido , afinal ele “esperava” que eu fosse mais inteligente”, na minha opinião, coisas, fantasias de criança !   Todos queremos ser amados, aceitos  e perfeitos diante do  ser amado !

     Sorriu  um pouco triste... isto já vi e resolvi  o que me trouxe a ti, disse ela ainda sorrindo,  É uma curiosidade , apenas        gostaria de saber se não fosse por esta Ferida Sagrada eu teria sido mais feliz? Teria eu contribuído na comunidade de forma mais saudável ,eficaz? Teria sido melhor mãe? Uma mulher mais realizada,   pois sinto-me muito bem, e               agradecida por    tudo que vivi e aprendi sobre mim mesma  e os homens nesta terra. Trago ainda curiosidade     em torno do destino ,    me    fascina,     há um desejo de saber ... Temos mesmo escolhas? Teria eu amado tanto e estaria tão   agradecida por cada raio de sol ?     Por cada  conquista         empreendida? Teria eu entendido minha mãe e a amado do jeito que é? Até que        ponto o sofrimento entendido e aceito é fonte de busca espiritual?        Tenho para mim  u m sim à vida e uma impressão de que tudo está certo !                        

     Silenciei  sorrimos uma para outra, havia um entendimento   além do tempo entre nós, a pergunta ficou no ar , abraçamo-nos e ela    se foi, com a mesma leveza e      propriedade com que entrou, ainda na porta apenas disse, obrigada, foi bom contar a história     redondinha para ti, somos  ,sobreviventes  e heróis não é mesmo?

     Estamos vivas!

     Só mais uma pergunta eu , já me     desculpando pela curiosidade 

e a bengala? Ela ,sorrindo ,para poder caminhar ...A Ferida Sagrada ainda dói, para lembra-me que sou humana e compadecer-me com a dor alheia , como um “Xamã” ?! (risos) .E, continuou, uma    artrose na perna esquerda se desenvolveu desde os vinte anos, os psicólogos achavam que minha dor era histeria,      após profundos diagnósticos  foi verificada a presença dum    desgaste ósseo,       bem como meus dentes que prematuramente , “destruí”, dentes são defesa e atributos de sedução !! Continuou,          segundo especialistas tive uma saliva muito ácida ,que atribuo a raiva não depurada  no momento      ideal, penso , graças as novas  técnicas hoje, não ”arrancam dentes fracos”  e, sorrindo   ela se foi !

     Não mais a vi porém tenho prestado mais     atenção às “Feridas Sagradas”. Reporto-me à  Freud a quem o Pai  disse  que   “não seria nada na vida “ .Ele só tornaria a lembrar essa frase, a muito custo, aos 41 anos. ..    talvez tenha sido esta a sua  “Ferida Sagrada”!

     Recordo Nietzsche  em  sua obra , Minha  Irmã e Eu  ,   na qual     relata  o assédio desta sobre sua inocência !

                          Virgínia Fulber de Além Mar

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