Virgínia Fulber

 Entre A Mulher Branca E A Índia De Mim

 Um dia quis ser índia

banhar-me nua nas águas do rio

dançar descalça

rir faceira diante  a menor surpresa

 

Um dia sonhei  em lançar mão

dos preconceitos  culturais

em purificar-me

em fundir-me no canto das aves

em atravessar os espinhos , a morte

em desfazer-me das amarras...

 

Um dia fui índia

senti um pouco de fome

um sol muito quente

uma sombra ligeira

o gosto da fruta a escorrer  queixo abaixo

lambuzei-me da graça das siriemas no cerrado

 

Um ano inteiro não assisti TV,

não ouvi as notícias,

não li os jornais

Um ano inteiro eu vivi

intensos aromas, sem sabonetes

sem desodorantes

sem adereços  dos homens brancos...

 

Um dia sonhei ser livre como  a capivara

correr não de medo mas de alegria

dançar reverenciando o amanhecer

muitos dias vivi tal qual sonho de infância

e destes dias é impregnado meu ser

 

confesso

da terra dos homens civilizados  não tive saudades

 

Agora  entre a   branca e a índia de mim

ressurge a criança  sem nome que às águas  e  matas se entrega

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