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Virgínia Fulber
Poliglota
Brasileiro traduz poemas de 60 idiomas
Querida Vânia
Estou enviando a Entrevista que janer Cristaldo fez com o avô de meu
filho,para divulgares,pode ser na minha"coluna"pois contém
CONSIDERAÇÕES da mais alta importância sobre lingüística e uma
contribuição para uma Cosmovisão
beijos
Virgínia
por Janer
Cristaldo
Considerado pela Universidade de
Cambridge como um dos dois mil eruditos do século XXI, ele já estudou
sistematicamente mais de cem línguas, das quais domina sessenta. Há mais
de quarenta anos vem desenvolvendo o projeto de estudar sistemática e
cientificamente duas novas línguas por ano. Traduziu para o português
poesias de 60 idiomas, desde o sanscrito até o chinês, reunidos na
antologia multilíngüe Babel de Poemas, cuja edição está sendo
negociada com a editora gaúcha L&PM. Uma monografia sua, Los fonemas
oclusivos y africados del aymara y del georgiano, foi publicada em
espanhol pela Universidade de Sucre e traduzida ao russo e ao serbo-croata.
Nasceu em Dom Pedrito, RS, há setenta anos e estudou nos Estados Unidos,
Espanha, Itália, China, na ex-Iugoslávia, na ex-Tchecolosváquia e na
ex-URSS. Chama-se Carlos do Amaral Freire e vive atualmente em
Florianópolis.
Onde e como surge teu interesse
por línguas?
O meu interesse pelo
estudo das línguas estrangeiras surgiu cedo, quando era ainda estudante
ginasiano, ao dar-me conta de que ler os clássicos estrangeiros em traduções
representava uma enorme desvantagem, isto é, que somente lendo no
original eu poderia usufruir do prazer estético que só o original
oferece plenamente. Depois, o fascínio pelo estudo, pela descoberta,
através das línguas, de outros tantos mundos, culturas e maneiras
diferentes de pensar tomaram conta de mim, principalmente com as muitas
viagens que realizei mais tarde. O conhecimento de muitas línguas
estrangeiras deu-me a oportunidade de fazer amizades com muitas pessoas em
vários lugares do mundo. O domínio de línguas estrangeiras nos fornece,
talvez, a ferramenta mais eficiente para o conhecimento e a aceitação do
diferente.
Te dedicaste nos últimos anos a
um empreendimento insólito em língua portuguesa e mesmo nas demais línguas,
a tradução de 60 poemas de sessenta idiomas diferentes. Tens
dificuldades para a publicação desse trabalho?
Há mais de 20 anos
venho fazendo traduções, tanto prosa como poesia, de muitíssimas línguas
estrangeiras ao português. Primeiramente, comecei a fazer traduções de
contos, principalmente, e de poemas como hobby. Ou melhor, como um desafio
lingüístico para testar minha própria habilidade e conhecimento das línguas
que vinha estudando sistematicamente há mais de 40 anos. Me explico...
quando estudo uma determinada língua, me proponho como objetivo final
chegar ao ponto de poder traduzir algo dessa língua ao português. E, se
possível, conseguir comunicar-me nela oralmente. Comecei com as traduções
de pequenos poemas das línguas latinas, germânicas e eslavas. Depois...
as demais. Mais tarde, aconselhado por amigos, resolvi reunir todas as
traduções a fim de fazer uma antologia multilingüe, na qual constasse o
original vis-à-vis com a respectiva tradução ao português. E, como apêndice,
pequenas notas biográficas e lingüísticas onde dou algumas informações
sobre algumas línguas exóticas ou pouco conhecidas do leitor brasileiro,
como georgiano, maltês, romani, papiamento, romanche, indonésio, sauíli,
albanês. Etc.
Sim, tenho dificuldade de
encontrar um editor. Algumas editoras (universitárias, principalmente)
disseram-me que havia problemas técnicos – doze alfabetos diferentes,
necessidade de criar vários sinais diacríticos e símbolos diferentes
– creio porém que a razão principal foi a constatação de que
semelhante edição poderia ser onerosa e com pouco retorno financeiro.
Onde aprendeste línguas não-latinas,
como chinês, russo e árabe?
As línguas latinas
e as germânicas estudei-as em Porto Alegre, na PUC. As eslavas estudei
nos Estados Unidos, Itália, Iugoslávia, Tchecolosváquia e na ex-URSS. O
russo eu já tinha iniciado aqui no Brasil, com emigrantes, durante a época
que estava na universidade. Com o russo criei um método que considero
muitíssimo eficiente. Fui morar com uma família russa para ter a
possibilidade de aprendê-lo na prática, na necessidade de cada dia. A
parte teórica eu estudava sozinho.
O chinês, que tinha começado
aqui no Brasil, com nativos dessa língua (o mandarim) tive, mais tarde, a
oportunidade de seguir um curso regular na Universidade de Madri e,
depois, na Universidade do Texas. Bem mais tarde, por volta de 1985, fiz
um curso intensivo na Universidade de Pequim. Estudei o árabe,
principalmente, com os muitos amigos palestinos que tinha aqui no Brasil.
Depois tive a oportunidade de seguir um curso teórico-prático dessa língua,
também na Universidade de Madri.
Em resumo, poderia dizer que
estudei umas 30 línguas em cursos regulares, oficiais ou universitários.
As demais, estudei-as autodidaticamente. Alguém já disse que as dez
primeiras são as mais difíceis. Depois, de acordo com o objetivo em
vista ou a necessidade momentânea, a gente inventa o seu próprio método.
Julgas ser o chinês uma língua
simples. Fala.
Sim, o chinês é
muito simples, no sentido lingüístico do termo. Isto é, uma língua
simples em contraste com as indo-européias, por exemplo, que são línguas
complexas. Creio que esta é, justamente, a razão principal porque a sua
aprendizagem se torna tão difícil para nós, ocidentais. Estamos
acostumados às estruturas lingüísticas complexas, como a do português.
O chinês é extremamente conciso, não tem gêneros nem números
gramaticais e o verbo não se conjuga. Simples não é sinônimo de fácil
e, no caso do chinês, é antônimo. As estruturas simples tornam-se difíceis,
confusas, pois não sabemos como compará-las com as nossas.
Na Bolívia, encontraste um futuro "não-aristotélico"
no aimara. Conta melhor essa descoberta.
Durante minha
longa estada (dez anos) na Bolívia, onde dirigi o Centro de Estudos
Brasileiros em La Paz, nomeado pelo Itamaraty, tratei logo de estudar as línguas
altiplânicas, com falantes nativos. Essa experiência me foi muito
valiosa, pois pouco mais tarde fui convidado a lecionar Lingüística
Contrastiva na Universidade Mayor de San Andrés, em La Paz. Foi
comparando as estruturas lingüísticas dessas línguas com várias
outras, indo-européias ou não, que cheguei a algumas conclusões
interessantes sobre as notáveis semelhanças fonéticas delas com as línguas
caucásicas e das características estruturais com as línguas altaicas.
Quanto ao aimara, como demonstrou
cabalmente o matemático e aimarista boliviano Guzmán de Rojas,
"existe uma lógica lingüística diferente, não-aristotélica,
claramente incorporada na sintaxe dessa língua".
A comunicação deficiente, ou
melhor, o desentendimento multissecular entre os indígenas e os
conquistadores e seus descendentes explica-se, em grande parte, devido a
sua diferente cosmovisão que, no caso dos aimaras, reflete-se nitidamente
em sua sintaxe através de morfemas especiais bem definidos. Nós que
falamos línguas indo-européias estamos imbuídos da concepção aristotélica,
dicotômica, de verdadeiro X falso, certo X errado, sim X não, e temos
certa dificuldade em aceitar ou compreender a concepção trivalente:
certo-errado-verossímil, do aimara, onde a ambigüidade ou o terceiro não
incluído tem valor de verdade.
A fim de tornar mais claro o tipo
de lógica trivalente do
aimara usarei dois exemplos da notável monografia de Guzmán de Rojas,
Problemática Lógico-lingüística de la Comunicación Social en el
Pueblo Aimara. Quando um falante nativo aimara, expressando-se em
espanhol, diz: "- Mañana he de venir nomás", as palavras
usadas não coincidem com o significado que as mesmas têm em espanhol, ou
teriam em português. A expressão "nomás", muito típica do
espanhol popular da Bolívia e do Peru, em situações semelhantes,
revela, na verdade, o pensamento aimara maltraduzido ao espanhol. Em sua língua
materna usaria a frase: "- Qharürux jutätki", onde o morfema
"ki" traduz ou expressa a dúvida simétrica, o terceiro valor
da verdade, o que simplesmente não existe em nossas línguas. Usa, pois,
a expressão 'nomás" para traduzir o sufixo "ki",
indicativo apenas de verosimilhança.
Na realidade, ele quer dizer o
seguinte: "amanhã pode ser que eu venha ou pode ser que eu não
venha. Não estou me compromentendo". Quando diz, porém "- Mañana
he de venir pues", usa o "pues" para traduzir o sufixo
"pi" do aimara, que indica certeza. Assim, "- Qharüru jutätpi"
é a forma aimara que corresponderia ao nosso "- Amanhã eu virei
certamente, me comprometi". Vemos, portanto, que o aimara tem um
futuro positivo, um futuro negativo e um futuro de dúvida simétrica.
Assim que, se os nossos políticos falassem em aiamara, teriam de escolher
bem o tipo de futuro a que se referem.
Andei pesquisando sobre o Guzmán
de Rojas. Não sei se sabes, mas ele criou o Qopuchawi, um ICQ que traduz
instantaneamente mensagens a seis idiomas.
Durante minha longa estada em La
Paz, tive o privilégio de fazer amizade com Guzmán de Rojas e de
acompanhar, de perto, o seu projeto. E sabes qual é a língua que usa
como base para a tradução das restantes cinco? É o aimara, uma língua
aglutinante de extraordinária regularidade sufixal.
Tens um estudo sobre as
afinidades fonológicas entre o aimara e as línguas caucásicas,
publicado pela Universidade de Sucre e traduzido ao russo.
A minha monografia
se chama Los fonemas oclusivos y africados del aymara y del georgiano,
publicado pela Universidade de Sucre. Pouco depois foi traduzido ao russo,
pois a comparação com o georgiano sempre interessou os lingüistas soviéticos.
Mais tarde, entre 1968-88, período em que exerci a função de Leitor de
Língua Portuguesa na Universidade de Belgrado, esse trabalho foi
traduzido ao servo-croata, pois despertara muito interesse não apenas aos
lingüistas mas também a alguns antropólogos e outros profissionais que
assistiram às minhas conferências. Estou convencido de que tanto o quíchua
como o aimara são línguas tipologicamente altaicas. Contudo,
fonologicamente se assemelham às línguas caucásicas e, particularmente,
ao georgiano, a língua materna de Stalin.
Podes nos contar como chegaste lá?
Como cheguei lá?
Por acaso... Eu estava dando uma aula de fonologia aos meus alunos de Línguas
Latinas da Universidade de La Paz. Apresentei-lhes uma fita gravada numa língua
desconhecida para eles (e para mim mesmo, naquela ocasião). Depois de
terem ouvido o texto várias vezes no laboratório lingüístico eu lhes
pedi que transcrevessem com o alfabeto fonético internacional (IPA) as
palavras que tinham escutado repetidas vezes. Terminado o trabalho,
verifiquei que aqueles alunos, cujas línguas maternas eram o quíchua e o
aimara, acertaram mais de 80% o exercício, enquanto que os falantes
nativos de outras línguas tiveram um acerto de, no máximo, 20%. A
conclusão? Quem ouve pela primeira vez uma língua desconhecida e
consegue identificar mais de 80% de seus fonemas é porque, quase
seguramente, esses mesmos fonemas existem nas suas línguas maternas.
Depois disso prossegui com minhas
investigações, entrei em contato com colegas da Universidade de Tbilissi,
capital da Geórgia e, para minha surpresa, fui convidado a fazer
pesquisas de campo in loco pela Academia de Ciências da então República
Socialista da Geórgia. O meu trabalho, Los fonemas oclusivos y africados
del quecha y del aymara é o resultado prático dessas pesquisas. E, de
fato, o georgiano, aquela língua desconhecida das aulas de fonologia, tem
notável semelhança fonológica com o aimara.
Quantas línguas dominas
atualmente e quais são teus critérios para dar uma língua por dominada?
Dominar
completamente uma língua, até mesmo a própria língua materna, é uma
empresa extremamente difícil. Pra mim, contudo, dominar uma língua é
possuir um conhecimento teórico-prático que me permita comunicar-me nela
e de poder traduzir, ainda que com dificuldade, um texto literário.
Baseado neste critério, um tanto pessoal, eu poderia dizer que domino
umas 30 línguas. Outras tantas posso traduzir, mas tenho pouco
conhecimento prático. Quando me perguntam quantas línguas falo (ou
domino) prefiro responder que conheço, isto é, que já estudei, com
critérios filológicos-lingüísticos, mais de 100 línguas durante um
período de mais de 50 anos consecutivos. Depois de me ter formado em
Línguas Neolatinas e em Línguas Anglo-germânicas (PUC, 1958), mantenho
a tradição de começar a estudar, sistematicamente, ao menos uma nova língua
estrangeira no início de cada ano. Já escolhi a próxima, wolof (uólofe),
que comecei a estudar no dia 1° de janeiro passado.
Traduzir é impossível. Mas é
necessário. Como é que fica um texto traduzido do chinês para o português?
Não creio que a
tradução seja impossível e, a prova disso é que há traduções
realmente notáveis, excelentes, principalmente quando a língua-fonte e a
língua-alvo pertencem ao mesmo grupo lingüístico e as culturas que elas
veiculam são próximas. Na introdução que faço à minha antologia
Babel de Poemas, tento mostrar que a poesia clássica chinesa é quase
intraduzível. Pode-se traduzir parte dela, não o todo. Por que? Porque a
poesia chinesa é escrita em ideogramas, verdadeira arte plástica. É língua
tonal, portanto música. É lirismo, literatura por seu conteúdo poética.
O poema chinês é uma combinação dessas três artes: pintura, música e
literatura.
A caligrafia chinesa é uma arte
que não consiste apenas em caracteres ou palavras para transmitir uma
mensagem, mas deve compreender, além disso, um elemento visual que
expresse um significado por meio da forma. Os ideogramas têm, portanto,
alto valor simbólico, intraduzíveis a outras línguas. A descoberta do
imenso valor estético dos ideogramas pelos poetas ocidentais,
principalmente Ezra Pound e, depois pelos nossos poetas concretistas, foi
uma fonte fecunda de inspiração.
Concluindo, poderíamos dizer que
o verdadeiramente intraduzível da poesia chinesa não se escreve, mas se
pinta com pincel, arte plástica, ou se ouve, quando se lê em voz alta,
combinação de tons, música. O que resta, ao traduzir, é algo abstrato
e genérico. É como tirar dessa poesia algo consubstancial ao seu corpo.
É justamente essa harmonia intrínseca entre conteúdo, forma e um estilo
extremamente conciso o que torna a poesia clássica chinesa quase intraduzível.
Segundo o lingüista francês Claude Hagège, uma língua
desaparece todos os quinze dias. Ou seja, 25 línguas morrem por ano. Mais
da metade das 600 línguas indonésias seriam moribundas. O ritmo de extinção
de línguas, que já se havia acelerado no século passado, deve atingir
grandes proporções neste. Isto empobrece a humanidade? Ou torna mais fácil
a comunicação entre os homens?
O caso das línguas malaio-polinésicas é muito ilustrativo.
Elas são faladas desde Madagascar até a Polinésia. Só na República da
Indonésia falam-se mais de duzentas línguas diferentes. Como todas essas
línguas pertencem à mesma família lingüística foi relativamente fácil
elevar o indonésio á categoria de língua oficial do país, pois ela é
uma língua veicular, resultado da simplificação e assimilação de
muitas outras línguas locais. Somente aquelas línguas antigas indonésias,
que têm história e literatura importantes, como o javanês (60 milhões
de falantes), o sudanês, o batak, o madurês, o balinês e poucas outras
poderão subsistir por muito tempo. O ritmo de extinção das línguas
deverá continuar enquanto os países interessados não tiverem políticas
lingüísticas definidas, as condições econômicas necessárias e, acima
de tudo, contar com lingüistas competentes que possam estudar e
classificar as línguas minoritárias em via de extinção. Para que não
desapareçam completamente é absolutamente fundamental que elas não
continuem como línguas não-escritas e que haja escolas onde possam ser
ensinadas. Teoricamente, é claro que a comunicação entre os homens
seria facilitada se houvesse apenas umas poucas línguas, porém é
igualmente certo que isso acarretaria um enorme empobrecimento do espírito.
As línguas são aspectos fundamentais, únicos e irrepetíveis da experiência
humana. E, aliás, a característica maior de nossa espécie. Cada língua
que desaparece – principalmente sem deixar vestígios, sem ter sido
estudada e documentada – significa a extinção de uma espécie.
Há um estudo alarmante da
Unesco, segundo o qual nada menos 5.500 línguas, entre seis mil,
desaparecerão dentro um século. Acreditas nesta possibilidade?
Se não tomarem, ao
menos, as providências acima enumeradas, o desaparecimento de centenas de
línguas será inexorável a curto prazo.
A expansão do anglo-americano e
de outras grandes línguas pode ser responsabilizada por este massacre de
línguas?
A expansão do
anglo-americano, assim como a de todas as grandes línguas internacionais,
é a conseqüência lógica das conquistas militares e econômicas, tanto
no passado como no presente. A língua do conquistador, geralmente,
prevalece.
Teu atual projeto é estudar o
wolof. Consta que esta língua é tão perigosa para as línguas minoritárias
do Senegal como o inglês ou o francês, pois não é considerada língua
estrangeira e possui o prestígio das grandes línguas africanas. Tens
opinião sobre a polêmica?
No Senegal existem
dez línguas nativas, das quais seis foram promovidas a línguas
nacionais. O wolof é compreendido por 80% da população. As seis línguas
nacionais – peul, serere, diola, malinke e soninke, além do wolof – são
ensinadas nas escolas primárias e difundidas através do rádio e da
televisão. O Senegal tem, portanto, uma política lingüística definida
e não creio que as outras restantes corram o risco de extinção, não
como em outros países. A tendência no Senegal é a de continuar o francês
como língua oficial e o wolof como língua veicular mais importante entre
as demais etnias.
Por toda a parte, há esforço de
lingüistas tentando salvar línguas faladas por comunidades de até 50 ou
100 pessoas. Vale a pena o esforço?
Foi justamente
o conhecimento de uma das mais antigas línguas pré-colombianas, o aimara,
falado por uns dois milhões de pessoas na Bolívia e no Peru, que levou
Guzmán de Rojas a constatar que essa língua nativa tem uma lógica do
Terceiro Incluído imbuída em sua sintaxe, isto é, uma lógica
trivalente e não a lógica dicotômica (verdadeiro x falso), aristotélica,
de todas as línguas indo-européias, de toda a cultura ocidental. Há séculos
os falantes dessa língua raciocinam segundo esse princípio, hoje
reconhecido e defendido por um grande número de cientistas e filósofos:
Lobachewsky, Vasilev e J. Lukasiewicz, na matemática. Planck na física,
J. Lacan na psicanálise e muitos outros. Esse é apenas um exemplo eloqüente
para comprovar o quanto a lingüística aplicada ao estudo de línguas
minoritárias e exóticas poderá contribuir para a ciência, para o
conhecimento do homem.
Estou plenamente convencido de
que o aprofundamento dos estudos de línguas que expressam culturas não-aristotélicas
poderá trazer ainda muitas contribuições nesse campo de investigação
do Terceiro Incluído. Creio que a investigação sobre a Weltanschaaung,
sobre a cosmovisão de falantes de línguas indígenas, assim como a de
falantes do chinês, do japonês e do coreano – e de outras línguas não
tributárias do princípio da contradição e da lógica clássica –
poderá confirmar, definitivamente, a tese do Terceiro Incluído num
futuro próximo. É pertinente lembrar que o próprio Einstein admitiu que
o princípio do Terceiro Excluído, da ciência clássica, é apenas um
postulado metafísico.
Não há dúvida! Vale a pena o
esforço. Essa é uma tarefa absolutamente prioritária da lingüística.
No País Basco e na Catalunha, as
escolas estão dando mais ênfase ao basco e ao catalão que propriamente
ao espanhol. Na Espanha, há pais que já não conseguem se comunicar com
os filhos. A teu ver, há algum lucro em renunciar a um idioma falado por
centenas de milhões de pessoas e encerrar-se em uma língua minoritária,
falada apenas por centenas de milhares?
O caso do basco (euskera)
e do catalão é de outra natureza. O basco continua sendo um enigma para
a lingüística. Não tem parentesco cientificamente comprovado com nenhum
grupo lingüístico. É uma língua única, amada, estudada e difundida
por seus falantes. Ao contrário das centenas de línguas africanas, asiáticas
e ameríndias, está longe de desaparecer. Ao contrário, o interesse por
ela tem crescido enormemente e está sendo ensinada e difundida pela mídia,
em todos os níveis.
O catalão é uma língua de riquíssima
história e magnífica literatura. Está fadado a um crescimento
constante. Se a política lingüística do governo espanhol continuar
democrática como está sendo atualmente, reconhecendo autonomia às províncias
com língua e cultura próprias, a sorte delas estará garantida. Somente
se houver ruptura do Estado e essas províncias se tornarem independentes,
aí sim os seus falantes preferirão a língua materna em detrimento do
espanhol.
Está sendo proposta uma nova língua
na Europa, o europanto. To speakare europanto, tu basta mixare alles wat
tu know in extranges linguas. Seria a única língua do mundo que se
aprende quase sem estudá-la. Teria 42% de inglês, 38% de francês, uns
15% de um misto de outras línguas européias e uns 5% de fantasia. No est
englado, non est espano, no est franzo, no est keine known lingua aber du
understande. Wat tu know nicht, keine worry, tu invente. Terá futuro?
Não creio que o
europanto tenha futuro. Aliás, a questão de aceitação de uma língua
artificial internacional é mais política do que lingüística. Do ponto
de vista puramente lingüístico, o esperanto é uma obra-prima e, no
entanto, ainda não conseguiu impor-se como deveria.
Quantas línguas já esqueceste?
É uma boa
pergunta... Já esqueci muitas, ou melhor, muitas das línguas que estudei
estão bastante desativadas. Contudo, com um pouco de esforço elas poderão
ser reativadas novamente. Traduzir, por exemplo, é uma das melhores
maneiras de não esquecê-las. Por outro lado a idade – estou com 70
anos – é um fator negativo inexorável
Virgínia Fulber 10/05/2004 |