

Uma menina no céu
31/12/01
Batidas na
porta.
O Senhor abre:
- Entra, Cássia.
Ela põe o pé direito na soleira
Dá um sorriso cheio de dentes pro Senhor
Faz um batuque com a língua
Tamborina os dedos na mão
Gira jacksonianamente 360º sobre o calcanhar
Dá uma grossa gargalhada:
- Entro, sim! Se puder um pouco de malandragem...
O Senhor consentiu: Sua Casa nunca mais será a mesma.
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Mil e dois vem aí. Fé nele!
É apenas psicológico o sentimento de que haverá mudanças somente porque muda o calendário. Mas é verdadeiro que esta mudança acaba por ensejar uma reflexão sobre o que passou e o que está por vir. É o exercício da Esperança, tão cara ao mais essencial do/no homem. O que esperamos para 2002 e anos seguintes? É preciso pensar no que passou e projetar.
Em princípio, deve-se fazer uma reflexão, pessoal e interior, sobre o que se fez, deixou-se de fazer – ou se omitiu – tanto individualmente, como no seio da família ou meio social em que se vive.
Depois, pensar no país em que vivemos e diuturnamente ajudamos a construir ou dele nos servimos. Nosso saldo é ainda muito ruim. Em quase 170 milhões de habitantes, temos cerca de 50 milhões de excluídos vivendo na miséria. Apenas pouco mais de 40% sabem ler e entender, o restante é analfabeto total ou funcional, em que pese o esforço do Governo em dar escola a todos. A exclusão social e educacional nos torna um país – embora rico entre os ricos – extremamente injusto. O termo injusto deve ser lido e entendido em sua plenitude. Somos um país com 50 milhões de sem-renda, sem-terra, sem-teto, sem-saneamento, sem-família e com 120 milhões de sem-educação (incluídos os analfabetos funcionais). Seria exaustivo ficar aqui falando de corrupção, políticos desonestos, de falta de política agrícola, sonegação fiscal, desastres ecológicos, faculdades sem qualidade de ensino, excesso de lucro e concentração econômica dos agentes financeiros, globalização da miséria e privatização da riqueza... Tudo isso nós já sabemos e isso nós dá uma consciência de que é preciso fazer ainda muito mais durante décadas e décadas para termos um país melhor.
Externamente, o mundo não vai bem e seria também exaustivo enumerar todas as mazelas fora de nosso quintal que refletem diretamente em nosso dia-a-dia. Apenas lembremo-nos do absurdo sentimento de intolerância com as diferenças, catalisado no desastre de 11 de setembro e seu desdobramento por demais doloroso que já sacrificou tantas vidas inocentes. O mundo acentuou o sentimento maniqueísta em que um sataniza o outro a partir da intolerância e a conseqüente Guerra do Afeganistão já se alastra e coloca outros países na alça da mira.
O que então está por vir será um ano negro em nossas vidas, marcado pela desgraça e pessimismo? A resposta é “não!”. Rolf Schünemann, presidente do Centro Ecumênico de Serviço à Evangelização e Educação Popular, em lúcido artigo na Folha de S. Paulo (24/12/01), resume o quadro: “Apesar de todos os desencantos e frustrações que o Censo de 2000 aponta, apesar da guerra insana e irracional que marca o ano de 2001, como demonstração da ambigüidade humana, somos animados, pela acolhida e aceitação de Deus, a viver a fé, a esperança e o amor dentro de nosso contexto de vida” (o negrito é nosso).
O Brasil melhorou muito. Somos mais cidadãos, temos mais consciência cívica, detectamos com mais realismo nossos problemas e podemos caminhar para um mundo melhor com mais segurança. Há mais ética na política, o povo aprendeu a melhor analisar os candidatos políticos, macroeconomicamente o país está mais embasado frente à volatilidade do mundo globalizado, nosso conhecimento científico avançou significativamente no campo da biotecnologia, nossa produção científica aumentou nas universidades e já faz parte – mesmo que de forma ainda incipiente – da iniciativa privada, estamos com mais produção agrícola, nossa agroindústria já tem projeção internacional, a pecuária é mais produtiva, nossa indústria está entre as mais modernas, nosso mercado interno é forte, há mais crianças na escola, tivemos um avanço singular nos meios de comunicação, somos mais suficientes em combustível, as liberdades individuais são mais respeitadas, nossa democracia está a um passo de consolidar-se, consumimos hoje mais livros, revistas e jornais, edita-se mais nos país, temos um dos maiores índices de acesso à Internet, nosso cinema está mais dinâmico e premiado lá fora, temos mais teatro em cartaz, nosso jornalismo possui projeção internacional, produz-se mais arte, nossa literatura é mais respeitada, nossa televisão possui uma abrangência das maiores do mundo (em que pese a qualidade duvidosa, com algumas exceções), o Brasil tem mais projeção internacional, somos claramente líderes na América do Sul, temos dado nossa contribuição para a paz no mundo...
Apesar destes avanços todos ainda não somos um país pronto, que possa desfrutar de índices de Primeiro Mundo. Há muito por fazer. O Censo 2000 não nos permite achar que já somos uma grande nação, mas as conquistas de base nos permitem – nos permitem, sim – o exercício da Esperança, mesmo que a caminhada continue árdua e cheia de tropeços a ferir nossos pés, a provocar quedas e sangrar nossos joelhos. É certo que caminharemos rumo a um Brasil mais justo, conseqüentemente a mundo melhor. Este é o desafio.
Precisamos a Deus que tenhamos força suficiente para cumprir nosso destino de uma grande nação. Dois mil de dois vem aí. Fé nele!
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WALDOMIRO PEIXOTO
Nasci em 21/08/50 em Ipuã/SP. Sou formado em Letras. Lecionei 15 anos Literatura e Língua Portuguesa. Não leciono há vários anos, mas onde me encontro, meus amigos insistem em me chamar de professor. No fundo, no fundo tenho orgulho disso, porque eu deixei de sê-lo por circunstâncias e necessidade. Hoje sou vendedor de equipamentos odontológicos. Moro em Ribeirão Preto e Bauru. Gosto de, obviamente, literatura - leio tudo que me cai às mãos. Procuro ser um leitor exigente, mas nào tenho preconceito com o que quer que seja de leitura/literatura - de cinema - sou fissurado em faroeste, principalmente os antigos, quando o cimena era mais cinema - de música - também nào tenho preconceito embora me enoje esta tantada de música comercial que hoje aborrece o ouvido de todo mundo - de cerveja e roda-de-conversa com os amigos (se eu fosse o Diogenes, talvez dissesse 'tertúlia', já deu pra sacar este lance dele. Em Ribeirão Preto faço parte de um grupo que se reúne regularmente pra discutir literatura e criar textos que se chama "Grupo Falmboyant" fundado em 1990 e resiste até hoje. Este Grupo já produziu antologias poéticas - "Cantata in Multivozes", "Versando in Tons (Di)Versos" e "UNIversos". Alguns elementos já publicaram, em carreira solo, alguns livros de contos, poesias e crônicas. Folgo em dizer, alguns deles com qualidade excepcional. Minha preferência, em poesia, vai para manuel Bandeira, Drummond, Cecília Meireles e Fernando Pessoa, embora haja tão grandes poetas como Cesário Verde, Gonçalves Dias, Carlos Nejar, etc. Meus contistas preferidos são o grande e inexcedível Machado de Assis, Lygia Fagundes Teles, João Alphonsus e Dalton Trevisan. Em prosa - qualquer gênero - sem dúvida, Machado, Graciliano, Guimarães Rosa e Clarice Lispector.